As alterações repentinas na rotina dos brasileiros pós-pandemia podem ser um prato cheio para o aparecimento de sintomas de ansiedade, depressão e estresse. Além das mudanças bruscas, o medo que vem com a iminência da doença e com a insegurança em relação ao trabalho e renda pode causar uma série de sintomas psíquicos à população.

Em uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira (20) pelo Instituto Paraná Pesquisas sobre as consequências do coronavírus, 39,3% dos entrevistados relataram ter sofrido alguma crise ou problema psicológico.

"Os principais sintomas que podem surgir são irritabilidade, diminuição da concentração, alteração do apetite, grande medo de adoecer, de morrer, de perder entes queridos, de ficar longe, de se contaminar, sensação de tristeza, de impotência, de angústia", listou a médica psiquiatra Christiane Ribeiro.

Segundo a especialista, é importante se atentar ao fato de que nem todos esses sintomas, no entanto, indicam que há alguma alteração psiquiátrica. Para o psicólogo e hipnoterapeuta Adriano Nereu, quem sofre com alguma dessas questões deve ser capaz de dimensioná-las. "A ansiedade também é normal, o que não é normal é o pânico, a ansiedade funciona por gatilho, quando há uma mudança, um trauma, uma doença, e pode haver sintomas físicos disso, a questão é quando isso se intensifica e se transforma em pânico", detalha.

Outra questão apontada nesse contexto pelo psiquiatra Tasso Amós é a solidão de quem fica mais isolado ainda por pertencer a grupos de risco. "Em primeiro lugar, vêm os sintomas ansiosos, depois podem vir os sintomas depressivos, porque além do isolamento, da incerteza financeira, vem atambém a solidão, já que muitas vezes as pessoas, principalmente idosas, ficam impedidas de ver os próprios filhos", destaca.

Leandro Boson, também psiquiatra, considera este um contexto desafiador para a manutenção da saúde mental, mas não impossível. "A principal dica é que a pessoa evite a automedicação, tome cuidado com o abuso do álcool para alívio imediato das tensões e venha praticar hábitos simples como a alimentação saudável, hidratação frequênte e, entre outros, manter uma boa relação de convivência com quem está em casa e tentar manter contato por meios eletrônicos com quem estiver longe", indica.

Dicas

Mudança total 

Entre as mudanças que a quarentena impôs ao dia a dia do professor Igor Lauar, a que ele mais se emociona ao contar é a falta da mãe em seu aniversário. "Completei 42 anos em março e foi o primeiro aniversário da minha vida que ela não passou ao meu lado", lamenta. A mãe dele mora em Teófilo Otoni, no Vale do Jequitinhonha, e tinha passagens compradas para vir à capital.

"No início foi muito difícil, estava trocando o dia pela noite, pois como meu tempo estava muito ocioso,  tentava dormir para aliviar o estresse, e quando chegava a noite não tinha sono. Até que comecei a fazer atividades como cozinhar e  montar  pratos, fazer caminhadas no corredor do prédio,  ler livros antigos, pesquisar e planejar novas aulas", contou o professor.

Ele, que mora em um prédio no hipercentro de Belo Horizonte, estabeleceu com os vizinhos uma rotina de distração e "contato": todos os sábados eles colocam música mais alta e ouvem juntos, cada um de seu apartamento. "Tem dia que levanto naquele baixo astral, naquele tédio de não conviver com as pessoas que a gente gosta, mas as redes sociais têm ajudado bastante a manter o contato", relata Lauar.